O TOQUE DE DEUS – III

o-toque-de-deus-3A proscrição de um leproso parece rigorosa, desnecessária. Contudo, o Antigo Oriente não foi a única cultura que isolou seus enfermos. Nós, talvez, não construamos colônias nem tapemos a boca diante de sua presença, mas certamente construímos paredes e afastamos os olhos. A pessoa não precisa ser leprosa para sentir-se em quarentena.

Uma de minhas lembranças mais tristes tem a ver com meu amigo da quarta série, Jerry. Ele e mais uns seis de nós formávamos um grupo inseparável e sempre presente no pátio.

Um dia liguei para sua casa para ver se podia sair para brincar. Uma voz maldizente, bêbada, atendeu ao telefone, e me disse que Jerry não poderia sair para brincar esse dia nem nunca.

Contei a meus amigos o acontecido. Um deles me explicou que o pai de Jerry era alcoólatra. Não sabia bem o que essa palavra queria dizer, mas aprendi muito rápido. Jerry, o que jogava na segunda base; Jerry, o da bicicleta vermelha; Jerry, meu amigo da esquina, era agora “Jerry, o filho do bêbado”.

Os rapazes podem ser cruéis, e por alguma razão fomos muito cruéis com Jerry. Estava infectado. Como o leproso, sofreu por uma condição que ele não criou. Como o leproso, o proscrevemos de nosso convívio.

O divorciado conhece estes sentimentos. Assim como o aleijado. O desempregado os tem experimentado, assim como os que tem pouca cultura. Alguns se retraem diante das mães solteiras. Mantemos distância dos deprimidos e dos enfermos incuráveis. Temos bairros para imigrantes, asilos para idosos, escolas para retardados, centros para adictos e prisões para os criminosos.

Nós, o resto, simplesmente tratamos de afastar-nos de tudo isso. Só Deus sabe quantos “Jerry” estão no exílio voluntário: indivíduos que vivem vidas caladas, solitárias, infectadas pelos seus temores de rejeição e suas lembranças da última vez em que tentaram. Preferem não serem tocados ao risco de serem machucados.

O Drama dos Proscritos

“Ah, quanta repulsa sentiam os que me viam! Cinco anos de lepra me deixaram as mãos retorcidas. Faltam-me várias falanges em vários dedos, assim como pedaços de minhas orelhas e do nariz. Ao ver-me, os pais pegam seus filhos. As mães cobrem seus rostos. As crianças me apontam com o dedo e ficam olhando para mim.

Os trapos não podem esconder as chagas de meu corpo. Tampouco o pano com que envolvo meu rosto pode ocultar a ira de meus olhos. Nem sequer tento escondê-la. Quantas noites não levantei meu punho crispado contra o céu silencioso? “Que fiz para merecer isto?” Porém, nunca recebi resposta.

Alguns pensam que pequei. Alguns pensam que meus pais pecaram. Não sei. Tudo quanto sei é que me fartei de tudo: de dormir na colônia, de perceber o fedor. Odiava o maldito sino que tinha que levar pendurado no pescoço para advertir às pessoas de minha presença. Como se precisasse dele. Bastava um olhar e os anúncios começavam: “Imundo! Imundo! Imundo!”

Algumas semanas atrás me atrevi a andar pelo caminho da aldeia. Não tinha nenhuma intenção de entrar nela. O céu sabe que tudo o que eu queria era dar uma olhada nos meus campos. Dar uma olhada em minha casa e ver, por alguma casualidade, o rosto de minha esposa. Não a vi; mas vi algumas crianças brincando num campo. Eu me escondi atrás de uma árvore e as observei vaguear e sair correndo. Suas faces estavam tão felizes e seu riso era tão contagioso que por um momento, apenas por um momento, não era mais leproso. Era de novo agricultor. Era pai. Era um homem.

Com a infusão da felicidade deles sai de trás da árvore, endireitei minhas costas, respirei profundamente… e então me viram. Antes que pudesse retirar-me, me viram. Gritaram. Fugiram correndo. Uma, porém, ficou. Uma se deteve e olhou para mim. Não sei, não poderia dizer com certeza, mas acho, na verdade acho que era minha filha. Não sei; não poderia garanti-lo; mas penso que ela buscava seu pai.

Esse olhar me fez dar o passo que dei hoje. Certamente foi temerário. Com certeza foi um risco. Mas, o que tinha a perder?

Ele chama a si mesmo de Filho de Deus. Ou ele ouviria meu clamor e me mataria, ou aceitaria minha demanda e me curaria. Foi o que pensei. Eu me aproximei dEle, desafiando-o. Não foi a fé que me empurrou, mas sim uma ira desesperada. Deus tinha feito uma calamidade no meu corpo, e devia restaurá-lo ou então, acabá-lo.

Mas então o vi, e quando o vi, mudei. Lembre que sou agricultor, e não poeta, assim não consigo achar as palavras para descrever o que vi. Tudo quanto posso dizer é que as manhãs da Judéia algumas vezes são tão frescas e o nascer do sol tão glorioso que olhá-lo é esquecer do calor do dia anterior e das feridas do passado. Quando olhei para seu rosto vi uma manhã da Judéia.

Antes que Ele falasse, soube que se interessava. De alguma forma soube que detestava esta doença tanto, se não mais, que eu. Minha ira se converteu em confiança, e minha cólera em esperança. Oculto por trás de uma pedra, o vi descer da colina. Multidões o seguiam. Esperei até que estivesse a poucos passos de onde eu estava, e então me apresentei.

— Mestre!

Ele parou e olhou para mim, assim como dezenas de outros. Uma torrente de temor percorreu a multidão. Os braços voaram para cobrir as caras. As crianças se comprimiram detrás de seus pais. “Imundo!” gritou alguém. De novo, não culpo eles. Eu era uma massa malfeita de morte. Porém quase não os ouvia. Quase não os via. Tinha visto mil vezes seu pânico.

Contudo, a compaixão dEle quase nunca a havia contemplado. Todo mundo retrocedeu, exceto Ele. Então avançou para mim. Para mim. Cinco anos atrás minha esposa tinha se aproximado de mim. Ela foi a última a fazê-lo. Agora Ele o fazia. Não me mexi. Simplesmente lhe disse:

— Senhor, tu podes limpar-me, se quiseres.

Se Ele tivesse me curado com uma palavra, teria ficado mais que encantado. Se me tivesse sarado com uma oração, teria me regozijado. Porém não ficou satisfeito com falar-me. Até então ninguém tinha me tocado. Até hoje.

— Quero! Suas palavras foram suaves como Seu toque. — Sê limpo.

A energia encheu meu corpo como a água num campo arado. Num instante, num momento, senti o calor onde tinha havido insensibilidade. Senti força onde tinha havido atrofia. Minhas costas se endireitaram, e minha cabeça se levantou. Onde eu tinha estado com o olho no nível de sua cintura, agora estava fitando-o ao nível de seu rosto. Seu rosto sorridente.

Tomou minhas faces com suas mãos, e me aproximou tanto que pude sentir o calor de seu hálito e ver a umidade de seus olhos.

— Não fales com ninguém. Mas vai e mostra-te ao sacerdote, e oferece a oferta que Moisés ordenou para os que são sarados. Isso mostrará às pessoas o que tenho feito.

É isso é o que estou fazendo. Vou mostrar-me ao sacerdote e abraçá-lo. Vou mostrar-me a minha esposa e abraçá-la. Levantarei minha filha e a abraçarei. Nunca esquecerei o que se atreveu a tocar-me.

E pensar que Ele poderia ter-me sarado apenas com uma palavra; mas desejava fazer mais do que me sarar. Desejava dar-me honra, validar-me. Imagina: Indigno de que me toque o homem, mortal, e, contudo, digno do toque de Deus!”

Leia também:

O Toque de Deus I O Toque de Deus II / O Toque de Deus IV

Reflexões que mudarão a sua vida com o Toque de Deus!

Roberto Passos

Assista ao clipe musical “Não Há Razão – Dida e Riane Junqueira”

The following two tabs change content below.
Nasceu em São Paulo, na cidade de Barueri. Atualmente reside na cidade de Cotia, próximo da Grande São Paulo. Destacou-se com a qualidade de diversos trabalhos na internet por seu profissionalismo e dedicação. Adventista de berço, colabora significativamente em projetos missionários da sua área de atuação.

Latest posts by Roberto Passos (see all)

Receber lindas mensagens do site